Centro

Foi a partir desse momento que senti mais frieza do que o normal em relação ao Téo. Ele parou de comparecer às reuniões de gabinete, até pensei que havia desistido de vez, mas seu nome ainda estava presente nas atas de debates da câmara. Isso deu a entender que ele precisava de tempo e espaço, então não poderia insistir, tinha que deixá-lo livre e não pressionado, uma vez que era o oposto disso que o pai dele fazia e por isso agora estava daquele jeito. Esperei alguns dias e mandei mensagem, mas ele sequer respondeu, só no dia seguinte, e ainda foi monossilábico. Fui ficando um pouco triste por ele e pela forma como me tratou, mas a compreensão tinha que estar acima do sentimento, até porque, as dores principais eram dele. O problema foi eu aguentar uma semana sem qualquer contato, justamente agora que estava acostumando até com os jantares. Tentei marcar, mas a resposta foi até mais surpreendente do que imaginei.

- "Desculpa, tô muito sem tempo. Ando frequentando uns cultos numa igreja que meu pai arranjou, tá complicado de sair."

Ele preferiu suprir a carência com religião, em vez de um ombro amigo. Tudo bem, escolha dele. Fui vivendo meus dias cada vez menos empolgado e mais preocupado com os problemas da realidade. E foi pensando nela que lembrei: como esqueci tanto da realidade? Ela veio com tudo.

Na semana que se seguiu, os dias pareceram normais demais, até meu sangue esteve sem correr, como se eu estivesse dormente para o presente. Senti como se fosse ficar mais dezesseis anos sem ver o Téo, fiquei nostálgico com saudades do meu pai falando sobre educação e pensei um pouco no meu irmão mais velho. Talvez fosse disso que eu precisava também, consolo. Pra ser sincero, admito que até o Moreno passou pela mente na hora do aperto sentimental, mas fui forte e não cedi a procurá-lo, principalmente porque ele disse que eu o faria. Acordei na sexta-feira disposto a ir pra algum lugar conversar com alguém, qualquer pessoa que fosse. Fiquei no colégio até a hora do almoço e me preparei pra sair. O celular vibrou e o Prefeito mandou mensagem no privado, pela primeira vez desde que nos conhecemos.

- "Está no colégio? Por favor, fique aí! Já estou chegando!"

- "Certo!"

Pelo tom, algo havia acontecido e ele precisava de mim. Segui direto ao anfiteatro e esperei sozinho por alguns minutos. O aparelho voltou a tremer no bolso e peguei outra vez pra ler, pensando se tratar do político. Só que era um número novo e desconhecido mandando mensagens, nem foto tinha.

- "Eduardo??"

- "??" - respondi.

Estava online e dando atenção somente a mim, porque assim que enviei ele já voltou a escrever.

- "Tu é o Eduardo q é professor?"

- "Sou sim, por que?"

A porta do anfiteatro abriu e o Prefeito entrou sozinho, um pouco apressado e com o rosto totalmente apático, como se algo muito sério tivesse acontecido. Pensei até na foto da queda de braço no jornal e me senti péssimo. Até imaginei que pudesse ter ocorrido algo com o Téo. Ele fechou a porta e veio andando em silencio até onde eu estava.

- Aconteceu alguma coisa? - perguntei.

Ele esticou a mão e pediu um cumprimento. Eu a apertei e ele automaticamente me puxou para um abraço inesperado. Nesse mesmo instante, meu celular voltou a tremer como se fosse explodir, eu não tive escolha senão voltar a ver do que se tratava, só que no meio do abraço mesmo, sem o Prefeito perceber, lendo as mensagens pelas costas dele.

- Olha, Eduardo, eu quero que você saiba que.. - prosseguiu.

Ignorei e só consegui manter os olhos no que aquele contato desconhecido me enviou por escrito.

- "Mataram o teu irmão aqui na favela. Vc tem que vir pegar o corpo"

- .. a gente vai ficar do seu lado pro que você precisar! - finalizou o Prefeito.

A realidade é LOUCA. O sangue enfraqueceu completamente, a visão ficou tonta, mas eu firmei os pés no chão e não caí, nem desmaiei. Li outra vez aquilo, me desvencilhei do abraço dele e olhei pra frente. Aí o coração deu aquela primeira batida após a porrada da onda de realidade me consumindo por completo, corpo e mente. Os vasos sanguíneos engrossaram, até minhas veias das mãos e a da testa ficaram evidentes. Como todo o corpo se preparou para a quentura da dor, os olhos receberam a descarga de emoção pela notícia e puseram-se a chover. O céu da minha mente, assim como o que estava acima de nossas cabeças, começou a desabar e só isso que escutei a partir daí. Silêncio total, só trovões, água batendo forte no chão e minha mente atordoada por uma mistura inimaginável de pesos. A promessa feita ao Téo, a promessa feita ao meu pai, a promessa feita a mim.. eu era um traidor delas, não importava quem fosse. Eu falhei em tudo. Quando as pernas não aguentaram mais, não sentei no chão. Arrisquei alguns passos até o corredor, bebi água gelada e, com muito sacrifício, fui pro carro. O Prefeito tentou me segurar, mas não deu certo.

- Com todo o respeito, senhor Prefeito. Eu tenho que enterrar o meu irmão e vou lá agora ver o corpo dele morto no chão daquela favela. Eu espero, do fundo do meu coração, que nem o senhor e nem o comandante Arthur tenham algo a ver com isso, se não eu CAÇO VOCÊS ATÉ NO INFERNO!

- Calma, professor! Você está nervoso! Eu não queria que você dirigisse nesse estado, mas vai lá esfriar a sua cabeça e depois vamos conversar sobre isso. Já disse que estou aqui se precisar de mim!

Liguei o motor e deixei ele na chuva. Não enrolei tempo, dirigi chorando de soluçar e com vontade de fazer uma merda muito grande, mas o sangue pulsando me guiou e deu forças suficiente pra só parar no final de tudo. Encontrei o corpo do meu irmão mais velho jogado no chão e cheio de tiro, no alto da laje de uma casa da favela. Seja lá como foi que aconteceu aquilo, alguém fez questão de promover um enterro com caixão fechado na hora em que o viu, porque até o rosto estava praticamente aberto, com o sangue sendo levado pela água intensa da chuva. Alguém que eu vi crescer comigo e vice-versa, lavado por dentro e por fora, estirado no chão de cimento, morto aos meus pés. Aquele era o meu irmão. Eu ajoelhei e observei seus olhos fechados. Tantas consequências e inconsequências, tantas expectativas e promessas, várias realidades diferentes se chocando e gerando mais caos, puro e expansivo por cima de todas as nossas vidas abaixo daquele céu trevoso. Todos nós cercados no Centro do tabuleiro. Eu, minhas lágrimas, as gotas de chuva e o sangue dele no chão. Em alguns momentos, mal soube dizer se era uma chuva de sangue, lágrimas no corpo dele ou gotas de sublimação em meu rosto. Eu climatizei a minha dor, pensei e repensei tanto nela que não pude me dar ao luxo de continuar esquecendo da realidade. Enterrei meu irmão no dia seguinte e me isolei no apartamento a partir daí. Lembrei de como Téo perdeu a mãe e eu não estive lá, imaginei que de repente ele não soubesse da notícia, já que estávamos distantes. O luto é engraçado, porque até nele existem experiências a serem aprendidas. Mas não esfriei, apenas condensei a tristeza e a apliquei no fogo das minhas veias. No começo, confesso que passei sete dias seguidos dentro de casa. Não trabalhei, não falei com ninguém, só comi e dormi, nem banho tomei. A barba cresceu firme, o cabelo também, a casa ficou imunda, mas meu casulo sentimental me deixou um pouco imune à depressão, mesmo optando pela solidão temporária. No final desses dias, retornei ao trabalho normal, porém com aquele novo pedaço vazio dentro de mim. O que aconteceria quando o sangue quente fluísse e chegasse aquele buraco no peito? Eu tava pra descobrir.

Retornei ao colégio tentando fazer parecer que nada ocorreu, mas a verdade é que me tornei mais intenso em relação à realidade. Dentro da mente, estava mais do que disposto a descobrir tudo sobre como meu irmão morreu, porque tinha certeza absoluta que alguma coisa fora do comum - e olha que meu comum já era zoado à beça - havia acontecido. As circunstâncias, a última vez que encontrei com ele no meio daquele campo de areia na favela, aquele roubo de armamento e as vontades de vingança do comandante Arthur, tudo isso me fez mais revoltado, mais desgostoso com a falta de igualdade na realidade. E muita coisa teria que acontecer, se não eu mesmo faria com que acontecesse. Todas essas certezas, dúvidas e sensações calharam de se misturar no mesmo dia. Ou noite. A noite do baile organizado pelos alunos do ensino médio do colégio, que eu esqueci completamente. Quando cheguei lá, já havia começado.

- "Vai malandra, an an!"

A música alta só ressonou um gênero musical favorito: o funk. Mas nada com palavrão ou apologia ao crime ou sexo, apenas música pra dançar e mostrarem os passinhos, uma cultura adorada pela maioria daqueles estudantes. Todos arrumados do próprio jeito, muito cabelo cacheado de lado, piercings, blusas de grife, cordões, maquiagem e jogo de cintura. Não quis participar muito, então preferi ficar na sala dos professores. Senti a temperatura amena e me perguntei porque o Téo estava ali, antes mesmo de entrar. Certeiro, ele me viu e parou.

- Eduardo, eu..

- Sem problemas, Téo!

Dei-lhe um tapa de leve no ombro e passei, sentindo só o cheiro do perfume acerejado. Ele não tinha nada a falar comigo, eu tampouco com ele, que preferiu se ausentar. De repente agora era minha vez, por isso sentei quieto na minha e comecei a corrigir provas, em completo silêncio, não fosse pelo barulho do funk lá fora. Téo saiu e, minutos depois, a música parou. Perguntei-me se algo poderia ter dado errado e saí pra ver, não deu outra.

- Isso não é música pra tocar dentro de uma escola, vocês não acham?

- Mas não tem palavrão, secretário. Não está contra as regras! - já fui cortando.

Ele virou e não respondeu, como se não quisesse discutir com alguém recentemente enlutado.

- Professor, eu não quis atrapalhar. Mas acho que todos os responsáveis ficariam mais à vontade escutando uma outra coisa.

- Então eles podem ir pra casa, secretário. Essa festa foi feita pelos alunos e para os alunos. Se eles querem ouvir funk, eles vão ouvir funk. Ficou entendido?

Uma estudante religou o som e todos comemoraram. Fiquei parado e ele não aguentou aquela ordem sem poder fazer nada, retornando pra dentro do prédio do colégio bem puto, de onde saímos apenas para aquela cena desnecessária. Com o passo acelerado, Téo foi andando apressado pelo corredor escuro de armários estudantis, enquanto eu o segui pra ver o que faria. Nossos passadas ecoando por onde passamos, até que ele entrou porta adentro pelo anfiteatro e eu fui atrás. Parou olhando pelas janelas, afastado e de costas pra mim.

- Tu tá com problema?

Não respondeu.

- Tu é secretário do Prefeito, eu sou secretário E professor desse colégio. Não tem o menor sentido tu vir aqui discutir com os estudantes, não acha?

Aí, com as mãos no bolso do terno vinho, ele virou e sorriu.

- Educação é pauta da prefeitura, não é? Ou estou enganado?

Eu já tava quase saindo, crente que falaria sozinho e não seria respondido, mas ali estava a resposta. Virei outra vez.

- Então tu vai falar de educação no gabinete da prefeitura, não dentro da minha escola!

A verdade é que o estresse recente, somado ao abandono do Téo e sua falta de interesse em estar comigo, uma vez que isso significaria contestar o próprio pai, tudo isso me deixou arisco, sem paciência pra ser bonzinho ou passional demais. O sangue esquentou, mas ele não respondeu, só ficou me olhando sério e fixo, sem piscar. De um lado do salão, eu e meu fogo se desfazendo em muitas ondas de calor. Do outro, Téo e a frieza estalante de ser tudo que era, tudo que sempre fora e sempre seria. Saí outra vez, porém antes de chegar à porta ele usou a ofensiva.

- Você tá assim por que o cara do dia do roubo morreu, né?

De costas, cerrei os punhos e fechei os olhos. Pelo visto, não fui só eu que ficou saturado da realidade, meu rival número um também precisava de colocar algumas coisas pra fora e faria isso eu querendo ou não.

- O cara que dirigiu pros bandidos que mataram minha mãe.. o seu irmão mais velho.

- Tu ainda sente muita coisa sobre isso, né? - perguntei de deboche.

- Todos os dias. Eu não culpo o seu irmão, não foi ele quem puxou aquele gatilho.

Os olhos encheram d'água, falar de um morto recente me pareceu injusto. Por mais que não fossem ofensas, tudo me pareceu muito errado de ser dito, então não consegui me segurar, andei na direção dele lentamente e o segurei pela gola da blusa.

- Você..

As lágrimas escorreram pelo rosto e eu tentei suspendê-lo um pouco, olho no olho.

- A gente.. - continuou. - Que vida injusta..

Ele tinha razão, e muita. Chorei com vontade, sem segurar pela presença dele. Soltei a gola da blusa e sentei numa das carteiras disponíveis, só com o som do meu próprio pranto. Ele não disse nada, afastou-se e ficou de pé olhando pela janela, as mãos no bolso e o olhar distante. Um escuro total, só o cheiro do perfume de cereja outra vez inebriando o ambiente. Ficamos nessa troca de energia durante quase meia hora sem falar, até que me senti pesado e levantei pra ir embora. Ele me viu indo, mas não indagou, deixou ir e ainda ficou lá. Peguei o carro sem ninguém ver e fui pra casa ficar sozinho.

Alguns dias após esses eventos, não melhorei em nada com a realidade. Ainda estava triste e meio com pesar, me sentindo inútil. Mesmo hesitante, trabalhei disperso e tentei cumprir as agendas do Prefeito, mas estava difícil ter interesse em qualquer assunto, ainda mais nesses aspectos de violência urbana. Num dos vários encontros de gabinete, no qual todos nós estávamos presentes, a pauta surgiu e me concentrei em não falar.

- Sobre as favelas..

O político fez questão de me olhar em silêncio antes de prosseguir. Aberto na cadeira estava, aberto na cadeira fiquei, olhando pro nada e fingindo que nem era comigo.

- A polícia pediu autorização.. - seguiu com pausas. - Pra manter as operações. A inteligência acha que estão perto de desvendar os roubos de armamento dos últimos meses.

Ninguém disse nada, todos me olharam e isso me irritou ainda mais.

- Eles ainda chamam a unidade de inteligência? Tem que rir mesmo!

E ri. Gargalhei sozinho, causando um leve desconforto.

- Professor, talvez o senhor precise de mais um temp-

- TEMPO, senhor Prefeito!? É o que eu mais tenho pra descobrir o que aconteceu com o meu irmão! E eu já avisei ao senhor que não tenho medo do que vou descobrir!

Foi aí que o Téo levantou e me puxou pelo braço no sentido da porta da sala.

- A gente vai tomar um ar puro, certo?

Mesmo contra minha vontade, fui saindo e sentindo o sangue voltar a circular pelo corpo. Muita pressão sempre me fez mal, talvez eu tivesse herdado mais do que o gosto pela educação do meu pai, que morreu do coração. Felizmente o sangue era da mãe.

- Vamos jantar mais tarde, que tal? Você precisa desabafar, Dudu!

Ignorei, só fiquei emburrado no corredor. Ele encheu dois copos d'água e me deu um.

- No mesmo lugar, na mesma hora.. Eu prometo que você vai poder me bater, se quiser.

Tomei uns goles, ele também, e continuou me olhando.

- Tá? - perguntou.

Olhei de rabo de olho e fiz que sim com a cabeça, só. Fiquei um pouco menos puto pras próximas reuniões do dia, mas ainda assim calado pra quando a noite chegasse. Tomei banho em casa, troquei de roupa e fui pro restaurante encontrar meu amigo. Cheguei um pouco atrasado, mas ele ainda não estava lá. Esperei dez minutos e nada, aí mandei mensagem.

- "Cadê tu?"

Mais cinco minutos até a resposta.

- "Vou me atrasar um pouco! Meu pai marcou da minha ex jantar aqui em casa e só avisou agora. Mil desculpas!"

Só podia ser brincadeira. Eu cheio de coisas pra pôr pra fora e ainda teria que esperar a ex-namorada do Téo ir embora.

- "Que piada!" - respondi. - "Vou sair, então!"

- "Não, me espera! Eu vou, só vou demorar!"

Pensei um pouco. Estava mesmo precisando de um ombro amigo.

- "Quanto tempo!?"

- "Meia hora eu tô aí!"

- "Ok."

Pedi as entradas e um chope, mas comi e tomei tudo sozinho. Dez minutos, quinze, trinta e nada dele chegar. Mandei mensagem no celular, mas sequer recebeu, aí fiquei puto. "Quarenta minutos", pensei. Porém fiquei uma hora e nada, nem sombra do Téo pelas proximidades do restaurante. Eu já havia bebido bastante, então paguei a conta e decidi voltar pra casa. Aproveitei minha companhia única, bebi comigo mesmo, só não conversei. Fui deixado na mão e isso foi mais uma das coisas que entrou na minha lista de desgastes mentais pra pesar no comportamento rebelde de recentemente.

Acordei com várias mensagens do Téo no celular, mas não respondi nenhuma delas.

- "Foi mal, Dudu! A garota dormiu aqui, ela nem me avisou nada. Ninguém avisou nada!"

- "Pois é, nem você!" - só pensei.

E pensar que fui deixado de lado por uma foda. Segui a semana sem encontrá-lo, ainda imerso naquele estado de quietude e peito pesado ao mesmo tempo. Queria e precisava de fazer algo sobre a morte do meu irmão, porque tinha certeza de que algo a mais havia rolado, só não sabia como começar. Minhas ideias foram as piores possíveis, cogitei até ter uma conversa aberta com o Prefeito pra tentar descobrir alguma coisa, mas vi que não daria em nada, seria apenas a palavra dele. Naquele dia, acordei disposto a fazer qualquer coisa em prol de um resultado. E não foi só eu que amanheceu fervido, logo cedo já tava rolando uma manifestação no Centro, perto da assembléia legislativa, onde ficava o gabinete. Eu não poderia contar com a ajuda da polícia, até porque, a morte do meu irmão poderia estar ligada tanto aos pms quanto aos traficantes. Então não tive melhor lugar para começar do que lá. Estacionei e, ao sair do carro, já quase fui atingido por pedras jogadas pelos manifestantes. Só que minha atenção estava direcionada ao Prefeito, ninguém mais. Abri passagem entre alguns seguranças e entrei. Na porta do gabinete, senti aquele frio de dentro misturado ao fogo pegando lá fora. Soube que não estaríamos sozinhos e confirmei isso ao encontrar Téo e o políticos sentados à mesa.

- Por que tu tá aqui?

- Porque eu venho aqui todos os dias. E porque sabia que você ia querer aparecer logo, logo.

- Ah, agora tu é segurança dele? - apontei.

- Por que ele precisaria de um segurança com você?

- Eu devo me preocupar, professor? - o Prefeito perguntou.

- Depende, por que tu não me passa o boletim da operação que matou meu irmão? Aí eu mesmo vou poder dizer..

Os dois se olharam e o Téo suspirou. Apontou pra cadeira e falou.

- Senta.

Obedeci mesmo contra minha vontade, aí o outro esticou o braço e me entregou um envelope totalmente preto e com o símbolo da polícia. Agora era a hora da verdade, minhas mãos tremeram de nervoso ao tocar o papel, mas não poderia mais esperar. Abri quase rasgando tudo, retirei apenas uma única folha de dentro e comecei a ler. Ali estavam informações sobre todo o esquema que enquadrou meu irmão, apenas em uma página de meio texto.

- Isso é uma piada?

- Lê primeiro, Dudu..

Foi o que fiz. E fiquei em choque ao fazê-lo.

- "OP: às 17h30 do último dia 11, a base recebeu denúncia anônima com a localização do alvo nos próximos dias. Uma unidade de patrulha verificou a informação e confirmou sua veracidade, nos garantindo o local exato onde estaria o alvo naquele momento."

- O seu irmão mais velho foi traído, professor. Alguém sabia onde ele estaria e avisou ao batalhão!

O sangue inflamou. Fiquei tão puto que amassei o boletim e joguei nele.

- ELES MATARAM MEU IRMÃO PORQUE TU DEU A ORDEM!

- Não, professor! Se acalma!

- Senta aí, Dudu! Você precisa se acalmar!

- Tira a mão de mim!

Levantei rápido e Téo já estava na minha frente pra me impedir de tentar qualquer coisa. Foi nesse momento que uma pedra atingiu a janela do gabinete e estilhaçou o vidro, chamando atenção pro conflito do lado de fora.

- Tu deu uma ordem pro Comandante pegar meu irmão, eu sei que deu! Tudo passa pela tua mesa!

- Eu posso garantir que era pra ser assim, professor! Mas infelizmente vamos ter que abrir uma investigação para checar se-

- INVESTIGAÇÃO!? Tá zoando com a minha cara!?

Téo ainda entre nós, bem no centro, impedindo o contato.

- Alguém agiu sem a minha ordem, professor! Foi isso que aconteceu! A polícia matou o seu irmão, mas a informação veio de dentro daquela comunidade, isso é um fato!

Ele tinha razão, eu só queria me livrar de tanta raiva, tanto ódio. Os seguranças entraram por conta da gritaria e do barulho das coisas quebrando e nos ajudaram a sair dali, por conta de uma possível invasão na assembléia legislativa. Na parte de trás do prédio, o Prefeito foi rapidamente até seu carro, mas ainda insistiu em falar.

- Eu posso te ajudar, professor! Não vai trazer o seu irmão de volta, mas vai resolver dois problemas com apenas um movimento!

- Eu não quero saber! Tu é um incompetente, espero que saiba que suas mãos estão sujas do sangue do meu irmão!

Porém o motorista dele não permaneceu pra ouvirem. Ficamos apenas eu e Téo na porta do carro dele, sendo que o meu estava na parte da frente do edifício, bem onde a multidão se aglomerou pra invadir. Virei de costas pra ir até lá e ele me conteve.

- Ou, ou! Vai a onde?

- Tu ainda pergunta?

Só havia um lugar na mente para onde eu poderia ir: a favela. Eu era cria de lá, conheci muita gente e queria uma explicação do que aconteceu com o meu irmão, da boca de cada um dos envolvidos no tráfico. Eu não sei onde estava com a cabeça, só pensei em vingança e ajuste de contas, então estava bem fora de mim e queria descobrir quem o traiu.

- Vou entrar naquele morro e socar quem dedurou meu irmão!

- VOCÊ VAI PRO MORRO? NÃO! VOCÊ NÃO VAI PRO MORRO!

Ele berrou comigo e isso me irritou ainda mais. Um contexto de violência civil, resto de luto, acúmulo de raiva e indignação. Sangue quente e suor. Segurou minha mão e eu a puxei pra me livrar rapidamente.

- Até tu vai ficar contra mim agora?

- EU SÓ QUERO O SEU BEM, EDUARDO! OLHA PRA MIM!

Téo não abaixou o tom, só continuou gesticulando e tentando me olhar de frente, entrando no caminho para que eu não andasse.

- Eu não tô te chamando pra vir comigo, só me deixa em paz! Vou sozinho!

- NÃO! VOCÊ NÃO PODE!

- NÃO POSSO!?

- NÃO!

O berro no meu rosto fez o sangue ferver. Queria que fosse uma queda de braço, mas não. Fechei o punho direito e dei um soco certeiro no rosto do Téo, tão forte que quase o derrubou de lado no chão de grama. A minha pele queimou junto com o cérebro, só depois de fazer que tomei consciência do que estava fazendo. Lembrei da primeira e última vez que isso aconteceu e fiquei ainda mais abismado comigo mesmo. Ele ficou tonto, olhou pra mim assustado e de boca aberta e aí tocou o próprio rosto pra checar o ferimento. Ficou vermelho de imediato, saiu um pouco de sangue da boca e perceber isso o deixou ainda mais incrédulo do que fiz.

- Voc.. Edu..

- Eu cansei de ficar que nem um cachorro atrás de tu, Téo! Se tu não quer ficar do meu lado, tudo bem, só não fica na minha frente! Estamos em direções completamente diferentes agora!

Ele não se rendeu, limpou o sangue frio, se ajeitou e ficou de pé outra vez na minha frente.

- A gente é tão igual e ao mesmo tempo tão diferente, não é?

Aí deu um sorriso e começou a lacrimejar. Atrás dele, só bombas e mais gás, a multidão cada vez mais próxima do campo onde estávamos.

- Então é natural que um tente parar o outro quando vê indo longe demais..

Foi aí que parei pra pensar no que fiz, agredindo meu amigo só por conta da raiva correndo no corpo. A minha direção não era aquela, nunca foi. Se antes eu não queria vê-lo chorar, agora fui a causa. A que ponto me permiti chegar. Téo começou a soluçar, aí me abraçou e disse no ouvido.

- Desculpa! Vai doer mais em mim do que em você!

Não entendi e parei para olhá-lo. Ele me soltou e, num só movimento, atravessou o joelho esquerdo na boca do meu estômago, bem em cheio. No primeiro segundo anterior, eu estava de pé e bem, com total visão ao redor. No seguinte, só senti uma dor extrema se espalhando em todo o tórax e fiquei completamente sem ar. Perdi o equilíbrio do corpo e senti que caí pra frente, com o diafragma totalmente amassado e os pulmões meio travados. A partir daí, apaguei completamente. Tenho alguns flashes momentâneos de ser segurado e balançado algumas vezes, porém levei um certo tempo até acordar e voltar a ficar consciente.

Senti uma tontura na mente e abri os olhos. Não lembrei de muita coisa, mas sabia que algo de muito errado havia acontecido. Tava escuro, frio e eu tava deitado numa cama de casal. A cabeça zonza, o estômago doendo, aí lembrei de uma dor forte me atravessando e recapitulei a merda que explodiu entre mim e Téo. Escutei sons de tiros próximos e, um pouco assustado, fui andando pelo escuro, guiado por um cheiro forte de perfume de cereja e pelo frio dos passos no chão gelado. Deduzi que estávamos na favela, porém isso mudou quando encontrei uma porta e abri, dando de cara com uma luz forte e quase cegante. Meu tórax ainda inchado, eu me adaptando à claridade, aí percebi uma sala de estar aconchegante e espaçosa. No sofá, Téo estava sentado e com aquela aparência de quem entrou em choque. Só de calça social, meias pretas e sem blusa, várias garrafas de rum e gin no chão aos seus pés. Ele mirava a TV no volume alto, eu só pensei em andar até lá e bater muito nele. Parei a poucos passos e me olhou sem virar o rosto, mostrando que estava com gelo no hematoma que deixei na cara.

- Acordou, ein?

Aí apontou pra TV, me fazendo olhar. No noticiário, o tiro comendo solto.

- "OPERAÇÃO MILITAR EM FAVELA NA ZONA NORTE TERMINA COM 4 MORTOS E 2 FERIDOS!"

Demorei uns minutos, mas fui entendendo. Aquela força militar que aparecia no televisor invadiu a favela onde eu morei quando criança, mesmo lugar que meu irmão chefiou durante anos. Eu devo ter desmaiado e dormido por umas três, quatro horas seguidas, tempo necessário pra tudo aquilo acontecer e agora eu acordar no apartamento do Téo e ver apenas o desfecho.

- Entendeu agora? - ele perguntou.

E ficou me olhando com cara de coitado. Devagar, sentei ao seu lado e concluí o óbvio: ele me salvou. Se não tivesse feito o que fez, eu provavelmente teria ido pra favela e estaria lá no momento exato em que a operação militar começou. Paralelo a isso, senti uma frieza absurda em como o Prefeito quis resolver aquela questão, o que acabou dando brecha pra mais mortes de traficantes e policiais, além de inocentes. A proporção das coisas estavam muito lá em cima ou em baixo de nossas cabeças. Aquele era um sistema que eu não havia aprendido em ciências sociais.

- Foi mal! - comecei.

Ele me olhou e sorriu.

- Não foi nada, o meu foi pior! E eu só consegui te trazer pra cá por causa desse soco. Se não fosse isso, eu não teria como te dar uma joelhada no estômago! Eu que peço desculpas!

Nesse momento, o mesmo noticiário mudou um pouco o foco da reportagem e mostrou a manifestação no Centro, a mesma que eclodiu pouco antes de sairmos de lá. O título da notícia também mudou.

- "TENSÃO: presença do exército ajuda a conter manifestação violenta na assembléia legislativa!"

A gente se olhou e lembrei das últimas coisas que o Prefeito me disse ao se despedir. Por mais que aquela operação não tivesse resolvido nada para o tráfico, parece que minha raiva havia se contido temporariamente, mas algo me disse que ainda não tinha acabado, mais coisa aconteceria. A repórter voltou a mostrar imagens de como foi a operação militar e apareceram muitos homens do exército entrando na favela, todos com aquela típica roupa camuflada, só que com os rostos cobertos que nem os próprios traficantes dali.

- Alguma vez tu já se perguntou por que esses caras usam capuz durante essas operações?

Ele me olhou e fez que não com a cabeça. Os dois escassos e sem ter o que falar, mas com muito a dizer.

- É porque a maioria deles vem das próprias favelas. Eles não podem ser reconhecidos pelos amigos de infância, pelos vizinhos. Até porque, vão matar todos eles a mando do governo. E isso vai resolver o problema da violência urbana sabe quando? Nunca!

Incrédulo, começou a rir assustado por causa de mim.

- E tu ainda ri? Tu deve ser muito fodido mesmo pra rir disso, né?

Assentiu e virou mais bebida.

- E ainda tá bêbado, quem diria, ein?

- Tem como viver tudo isso que a gente tem vivido sem encher a cara? Você conhece alguém que consiga? Me apresenta!

Meu cérebro fez cócegas e sorri por lembrar de já ter ouvido algo parecido, só que de uma outra pessoa totalmente diferente do Téo. A vida era mesmo muito irônica e debochada, afinal de contas, estávamos outra vez lado a lado.

- Tu é muito fodido mesmo! - ri.

- Nós dois somos dois fodidões e dos bons! - completou e me passou outra garrafa de bebida.

- Sim, dos bons!

Revezamos as goladas como velhos companheiros de guerra, dois amigos que pararam um ao outro quando julgaram necessário. Isso só fez crescer o laço, no fim das contas. Minha barriga dolorida, o rosto dele inchado, a gente bebendo e rindo como se em algum momento do passado tivéssemos prometido rir de tudo aquilo num futuro longínquo. O que seria de nós se não fossem as lembranças, correto?

- Talvez a vida seja isso, sabe? - falou.

- Como assim?

- Talvez a vida seja uma bosta na maior parte do tempo, mas tem aqueles momentos bons que você quer que nunca terminem.

Ele tinha completa razão. Eu mesmo poderia lembrar de vários assim. Meu pai me ensinando matérias de escola, as pessoas ao redor dizendo que eu parecia minha mãe, as brigas de pequeno com meu irmão, pra não falar do Téo em si.

- Concordo totalmente!

- Só pode ser! Agora estamos cansados de tudo que tem acontecido, por isso essas risadas, porque nada é muito engraçado ou justo.

- Exatamente isso, Téo!

Ele parou, olhou o céu de fim de tarde pela janela e me viu nu e cru, cada um com suas feridas físicas e mentais pesando na cabeça e nas costas. Arquitetou alguma coisa e concluiu.

- Vem cá!

- Eu tô um pouco dolorido, sabe? - respondi. - Alguém me deu uma joelhada e-

Sorrindo, passou por cima do meu discurso, pegou minha mão e saiu puxando. Eu fui devagar e o alcancei, chegando até o andar de cima do apartamento, onde havia uma espécie de sacada com área mais livre para observar o céu. O sol terminando de dar adeus ao final da linha do horizonte, um breu fuzilado - com o perdão do termo à essa altura - de vários brilhos de estrelas acima de nós. Abaixo delas, nós, um do lado do outro. Ele à direita, eu sentado na esquerda, como sempre foi, desde o dia que nos olhamos pela primeira vez naquela sala de aula.

- Um dia você me levou na sua casa, se lembra? - perguntou.

- Eu nunca esqueci, Téo..

Devagar, ele veio se chegando e ajeitou minha perna. Estiquei e ele deitou com a cabeça no meu colo, da mesmíssima maneira como fez no terraço da minha casa na favela, dezesseis anos atrás. Deu um riso tranquilo e sereno, fechou os olhos e despreguiçou-se.

- Eu nunca teria como esquecer tudo aquilo..

Com os braços abertos pra cima, ele abriu os olhos e ficou me olhando bem pleno. Eu vi nos olhos do Téo o brilho das estrelas do céu, porque agora era ele quem estava olhando pra cima e eu pra baixo, naquela enorme e grande cidade lotada de direções, sentidos e oposições. Afaguei seu cabelo mais curto do que antigamente e subiu ainda um pouco do cheiro do perfume de cereja que ele sempre usou, desde novinho. A mente ficou tranquila, um vento morno nos abraçou e o escuro total da noite nos cobriu. Ao mesmo tempo, minha mão desceu pela lateral do rosto dele, deslizando por entre a costeleta e alisando o lábio inferior. Mesmo no escuro, senti o sorriso do Téo na minha mão terna e pouco mais quente que sua pele de temperatura amena. Ele passou a mão no rosto, bem por cima da minha, e a segurou, aí me olhou fixo nos olhos e, bem devagar, subiu um pouco a cabeça. Eu também fui em seu encontro, era o que mais queria desde que me conheci por gente, por Eduardo.

Nossas bocas se tocaram e a primeira coisa que senti foi o corpo entrando em êxtase, mas sem quentura excessiva. O frio dele também diminuiu, como se somente naquela situação nossas energias pudessem entrar num equilíbrio absoluto de forças. Ali, e somente ali, não existiram esquerda ou direita. Eu e Téo criamos um Centro, a nossa própria Esquerda Direita, construída com tijolos lapidados pela vida e colocados por mãos experientes como as nossas, baseadas em nossas próprias experiências diante do tabuleiro que era viver naquela sociedade. A minha vida, a vida dele, era tudo a mesma coisa, só mudavam as circunstâncias. Não existiu melhor ou pior, existiu apenas o nós como um todo, importando um pro outro. Tanto pro todo que éramos nós dois, quanto pro que nós dois significávamos nesse mesmo todo. Senti tudo isso quando a mão dele afastou meu rosto e ele me olhou sério, como se não pudesse acreditar no que estava acontecendo. Aí me puxou novamente e voltamos a mexer de um lado pro outro, eu todo torto e me ajeitando, sem parar um segundo de beijá-lo. Tive vontade, pressa, desejo de agarrá-lo pela boca e enrolá-lo com a língua para senti-lo por completo. Dezesseis longos anos repletos de saudades acumuladas, coisas pra contar e mais ainda pra fazer e descobrir ao lado do meu melhor amigo. Começamos a suar e eu já tava praticamente deitado sobre o Téo no chão da sacada. Paramos várias vezes para nos olharmos e foi quando percebi seus olhos vermelhos e marejados.

- Te machuquei?

A boca tomada pelo gostinho de rum doce que ele tinha.

- Nem toda lágrima é de tristeza, Dudu!

Abraçou-me e voltamos a nos beijar, agora sentados de frente um pro outro, eu com o corpo um pouco mais acima, meio que sentado em seu colo. As mãos passaram por baixo e subiram pelas minhas costas, dando sustentação pra que ele me inclinasse pra trás e viesse ainda mais pra cima de mim, numa vontade parecida com a minha de sentirmos um ao outro. Foi ele quem deitou sobre meu corpo dessa vez, continuando a encontro de bocas de um lado ao outro. Senti suas coxas em cima das minhas, ele fazendo movimento lento e atritando nossos físicos. Entrelaçamos as mãos e, no meu calor do momento, o Téo fez a maior descoberta em sua própria humanidade: o fogo do meu quadril. Segurou meu queixo, mordeu meu lábio e me olhou nos olhos com aquele olhar de rivalidade que eu jamais imaginaria encontrar até naquela intimidade. Mentira, imaginava sim. Essencialmente opostos, eu sabia como seria.

- Que isso? - perguntou.

Eu agarrei suas costas em mim e prendi as pernas em seu corpo.

- Adivinha?

Aí forçou a cintura na minha e roçou com a ereção contra minha própria excitação em forma de vara. Um por cima do outro, ambos com vontade, saudade, possivelmente apaixonados e com tempo e espaço certos pro que não teria como não acontecer.

- Tá animadão, é?

- Só eu?

Uma rola deslizando na outra pela roupa, ele torto para um lado e eu pro outro, o beijo voltou a rolar e a coisa de terna foi ficando safada, mas ainda com todo amor e segurança envolvidos. No nosso Centro, a certeza era de que rolaria, nem que o mundo acabasse. E assim continuamos nos beijando e brincando de briga de espadas, quadril no quadril, cintura na cintura. Quando ele começou a beijar meu pescoço, a barba da costeleta roçou firme pela pele e me deixou todo arrepiado, não tive como não arranhá-lo pelas costas largas.

- Ssss!

Aí passou a mordiscar e morder meus ombros, descendo com a barba e a língua até chegar nos mamilos. Enquanto chupou um, massageou o outro como se fosse experiente naquilo, só que eu entendi que, na verdade, ele provavelmente só estava fazendo o que gostaria que fizessem com ele. Foi aí que, não me aguentando mais de tesão e desejo socado no tempo, tomei impulso e virei o Téo no chão, ficando sentado sobre seu tórax. Abaixei a cabeça e tornamos a beijar, ele com as mãos em minhas coxas e os dedos firmes na carne, como se tentasse entrar para sentir por dentro o fogo das minhas entranhas. Nesse contexto, me permiti fraquejar e deixá-lo experimentar, tanto pela curiosidade quanto pelo fato de ser ele. Até porque, se o Moreno esteve ali.. enfim. O abusado nem perdeu tempo, foi brincando com a língua na minha e usando as mãos para descer ainda mais por seu corpo, que foi o que fiz. Sentei exatamente sobre a virilha e senti o volume forte e pesado encostado na abertura entre as nádegas, mesmo de calça social. Ele mordeu o lábio inferior, me olhou e riu.

- Que foi?

- Tu tá muito animadinho, né? Tá pensando o que?

- Ah, que isso, Dudu!

Fez até biquinho pra pedir, só que eu queria vê-lo daquele jeito mesmo, até porque, já havia me decidido. Tirei de vez a blusa social e voltei a me atracar por cima dele, por entre beijos intensos e abraços bem amassados. Entreguei-me às mordidas no pescoço e à vontade insistente da boca dele em me abrir por inteiro. A mão do Téo veio no momento exato pelo meu lombo e desceu entre as nádegas, o dedo culminando certeiro no rabo piscando de vontade de possuí-lo. Ele só me seduziu, quase não senti o trabalho dos dedos em me preparar. Suando e ofegando um no corpo do outro, só percebi o sexo quando a ponta do cacete pincelou pela entrada anal e foi empurrando devagar. Relaxei facilmente, mas ainda assim fui alargado pra permitir que Téo entrasse. Ele fez um bom trabalho me envolvendo e confiar nele já estava além de ser requisito. Apertou minhas coxas quando passou a cabeça e gemeu na porta do meu ouvido, acarinhando meu cabelo e enterrando os dentes no meu corpo. Provavelmente sentiu o atrito e o aperto provenientes do início da penetração, vibrou nervoso e me abraçou de vez, pra colar o corpo no meu por inteiro. Nesse pequeno impulso, esticou as pernas, dobrou os dedos dos pés e forçou-se um pouco mais pra cima, ao mesmo tempo que me trouxe pra baixo, pra si. Contraí de nervoso e senti todo o pau dele dentro de mim, as pregas pegando fogo pela maior exploração já sentida, tamanha grossura do monumento.

- Hmmmm!

Mexi o quadril sem querer e ele ficou ainda mais arrepiado, como se houvesse descoberto a fonte do meu fogo interior e agora a tocasse com a ponta da vara. Quando rebolei de leve, apertou firme meu corpo com as mãos e senti que era aquele êxtase que o tirava do sério. Fiz isso ao mesmo tempo em que contraí o rabo, deslizei a cintura de um lado pro outro e fui masturbando o cacete com minha própria elasticidade anal e fogo interior. Ele pediu pra diminuir um pouco, mas, sendo eu feito de chamas, não havia mais volta. Segurei seus braços abertos, enfiei a cara pelo pescoço e voltei a beijar, arfando o cheiro delicioso do perfume masculino, assim como o gosto misturado ao suor do dia. Qualquer fluído dele me pareceu atraente de provar. Enterrei as nádegas com certa pressão e fui sentando no caralho do Téo dentro de um ritmo gostoso e não tão apressado, porém nem lento. Agora foi ele quem me mordeu, arranhou e apertou, o tempo todo me amando com o tesão à flor da pele. A temperatura num equilíbrio totalmente inédito e exclusivamente temporário, que só existiu quando nossa conexão íntima foi estabelecida, alcançada. Além de duas cargas colossais de energia acumulada ao longo de inimagináveis dezesseis anos.

- Se você continuar.. - ele começou.

- E aí? - provoquei sem parar.

Ele queria me possuir, então eu não faria por menos, o sangue quente nunca permitiria. Tinha que ser intenso, único e bastante significativo a ambos, por isso ali estava a minha força de vontade. Não parei de sentar e os olhinhos foram virando pra cima. Até que a rola foi ficando ainda mais rígida dentro de mim e senti como se pudesse ser rasgado a qualquer momento, mas de prazer. Ele devia estar perto de gozar e não se aguentou, me virou num impulso e me colocou por baixo, só pela simples necessidade de querer ser ele o cara quem faria o resto da força necessária para nos levar até lá em cima.

- SSSS

Meus dedos dos pés dobraram pela mudança de posição, além de apertado, senti lá dentro uma coisa muito gostosa, como se Téo finalmente tivesse encontrando a fonte. A essência do que eu mesmo chamava de essência. O fogo no meu sangue!

- Isso, Téo! SSSS

Me contorci no chão e ele se agarrou ao meu tórax, abraçando-se a mim e terminando só com a cintura. Senti a próstata sendo deliciosamente massageada pela vara grossa dele e a mão do puto ainda tentou me masturbar. Ele tremeu e esticou-se dentro de mim, o corpo todo envergado, me puxando pra si. Lá dentro, na origem das minhas entranhas, o que senti foi inédito. Minhas chamas começaram e crescer, mas alimentadas pelo frio daquele outro ser. Da mesma forma que a água apaga o fogo e o fogo ferve a água, a penetração chegou ao auge e ele se prendeu às minhas coxas, todo forçado pra mim.

- Hmmm! Arhh

- SSSSS

Senti que também gozaria e apertei ainda mais na pressão anal, puxando com força as jatadas fartas de leite quente que vieram em seguida.

- Dudu.. Sss!

Não consegui responder, também comecei a gozar e leitei o tórax dele, que ficou jogado por cima de mim por uns minutos até pensar em se recompor. Meu rabo latejando, a vara amolecendo aos poucos, até que deslizou e escorregou pra fora, deixando aquela ardência ao passar pelas pregas passionalmente alargadas. Senti o leite dele quente dentro de mim e imaginei que era um fluído raro, já que ele em si era todo frio. No meu interior, estava uma das poucas coisas que não eram essencialmente geladas dele. Uma das únicas quenturas produzidas pelo próprio Téo. Ele então caiu pro meu lado e deitou com uma coxa sobre meu corpo, como se precisasse de me impedir de sair. Aí ficou me olhando sério, com aquela cara barbuda de homem carente. Eu vi o mesmo semblante do moleque franzino que conheci um dia, só que crescido, agora um pouco mais próximo do feliz que sempre imaginei pra nós dois. Ele me aconchegou próximo da axila, quase em seu colo, e ficamos olhando pro céu, mais uma vez observando as estrelas. Essa foi a primeira noite que passamos juntos como amantes e amigos, além da presença de um céu finalmente com luar. Sem mais ausências.

- Quantas pessoas.. - começou a falar.

- Hm..

- Quantas pessoas você acha que estão olhando pra essa mesma lua nesse exato momento?

- Essa é uma boa pergunta.. - falei. - Mas já parou pra pensar quantas pessoas estão olhando pra lua dessa mesma forma que a gente tá?

- Como assim?

- Assim, depois de tanta coisa acontecendo, tantos encontros e desencontros..

Ele pensou um pouco, como se realmente quisesse dar uma resposta, e, de fato, deu. Esse foi o meu primeiro estalo sobre os pensamentos não revelados do Téo, como se a partir do nosso encontro tudo fosse começar a fluir mais naturalmente, principalmente agora. Sem pressas.

- Você que é de humanas pode falar. Mas se eu fosse dizer algo..

Pausou. Fiquei muito interessado e ele riu pela minha cara, me dando um beijo de leve antes de prosseguir.

- Se eu fosse dizer algo, diria que deve haver mais pessoas do que a gente imagina, só nessa cidade.

Não quis incentivá-lo, então parei e pensei no que ouvi. Havia sentido naquilo.

- Porque foram as circunstâncias da vida que nos trouxeram aqui, não é verdade?

- Sim.

- Essa sociedade é esquisita, deve ser mais do que fácil encontrar gente assim que nem a gente agora. Olhando pra lua e vivendo coisas como essa, quem nunca?

Começou a rir e me deu um beijo na testa, aí me abraçou e deixou perto do coração, lado a lado, no mesmo encontro de energias e temperatura que nos manteve confortáveis até então. Fiquei bastante tempo aconchegado ali, só no encontro entre braço e tórax do Téo, envolto em seu perfume acerejado e no colo protetor e onipotente que me guardou morno, acalentado. Com a respiração leve e duradoura, percebi que ele pegou no sono e me permiti, como poucas vezes antes, também dormir e relaxar sem qualquer preocupação em mente, como se toda a felicidade fosse durar para sempre. Puro engano. Dormimos sob o luar estrelado do céu noturno, pelados na sacada do apartamento do Téo.

Acordei com ele me apressando e pedindo que me vestisse o quanto antes.

- O que houve?

- É complicado, Dudu! Se arruma primeiro, aí a gente conversa.

Mas não teve como esperar, eu já estava com a mente a mil por hora quando o pai dele chegou e me deixou assustado pelo simples fato de ter a chave do apartamento que era do filho. Ao me ver, ele ficou paralisado e sem reação.

- Pai, esse é o-

- Eu sei quem ele é, Téo! Como esquecer a fuça desse pivete depois de tantos anos?

Não me importei com quem ele era ou o que representava na vida do Téo, só me contive e não rebati de início, permaneci calmo e observando toda a cena. O velho, com poucos cabelos na cabeça, mais baixo que eu e visivelmente incomodado, começou a falar alto e gesticular com pressa.

- O que isso significa, Téo?

- Pai, fica calmo! O professor Eduardo sempre foi meu amigo!

- Amigo, Téo? Como você é amigo desse petralha de merda? Isso é um doutrinador que nem o pai, Téo!

- Cuidado ao falar do meu pai, coroa! - rebati.

Aí meu amigo me olhou e pediu um "por favor, Dudu!" sussurrado entre os lábios.

- Coroa? TÁ OUVINDO ISSO, TÉO?

Olhei pra cara dele e esperei uma reação. Se a intenção era ficarmos juntos, o primeiro passo já havia sido dado e requeria um outro ainda mais forte e significativo. Aquela atitude tinha que acontecer exatamente naquele momento, com um de frente pro outro. A boca do Téo tinha que abrir e pôr ordens na própria casa, somente ele poderia fazê-lo. Olhamos pra ele ao mesmo tempo e o dono do apartamento nos olhou de volta. Aí suspirou e me encarou de um jeito sério.

- Eu vou te ligar, Dudu! Por favor.. - pediu.

- Tá falando sério? - perguntei. - Vai me expulsar?

Mais uma vez ele quis um tempo. Eu adorei a noite, mas não tive muita paciência pra isso. Do contrário, estava vestido com a roupa que vim, então comecei a me preparar para sair sem responder nada. Se ele queria espaço pra falar num outro momento, então tudo bem, mas me pedir pra não ficar estressado com aquela reação depois da noite que tivemos já era demais.

- É só por enquanto, Dudu! Eu prometo!

- Não promete nada, Téo! Você não vai voltar a encontrar com esse pivete, pode esquecer!

Ignorei os dois e bati a porta na hora de sair. Tava boladão, porém não completamente. Saciei parte da vontade que sentia até então pelo Téo, com exceção de que meu desejo de continuar ao seu lado estava maior do que nunca, totalmente avivado e mais imensurável do que qualquer outra sensação que já tive na vida. Quase tão absoluto que me doeu ter que sair da casa dele, mas eu saí. O próximo passo tinha que ser dado, então o sentido não era mais para os lados, e sim para frente.

Ao chegar no meu apartamento naquele dia, encontrei um envelope pequeno sobre o tapete de entrada da sala de estar. Estive fora por muitas horas, uma vez que saí na manhã do dia anterior e só retornei agora, na manhã do dia seguinte. Estava sozinho diante da porta, imaginei que se tratasse de alguma das armações do Moreno e não dei muita importância pro conteúdo. Mas, ao levá-lo pra dentro de casa e desvendar seu conteúdo, encontrei um pen drive todo amassado e arranhado, em formato padrão, preso num emborrachado de cor preta. Senti que a coisa estava ficando séria demais e corri pro notebook. Conectei o dispositivo, aguardei que aparecessem as opções de reprodução e escolhi abri-lo. Na única pasta existente, somente um arquivo de vídeo, no tamanho de aproximadamente cinquenta megas. Dei clique duplo e o reprodutor de mídia abriu. A primeira imagem que apareceu foi a de uma parede de tijolos, enquadrando uma espécie de janela mal acabada e duas cortinas feitas de plástico presas por cima dela. Uma mão escura e ferida mexeu na câmera filmando sobre uma superfície, a imagem foi focando e, bem diante dos meus olhos, meu irmão apareceu na tela do computador. A reação de choro foi quase que imediata, os olhos encheram d'água ao vê-lo outra vez e levei as mãos à boca no impulso. Com uma atadura e tipóia prendendo o braço, ele sentou de frente pra lente, olhou pros lados e se concentrou. Estava visivelmente assustado e atento a qualquer movimento ao redor, isso foi perceptível. Até que finalmente olhou na câmera e começou a falar.

- "E aí, Eduuu?"

Tentou dar um sorriso pra disfarçar o medo latente e me tranquilizar como se soubesse que eu estaria assistindo aquilo cedo ou tarde.

- "Tu sempre pensou que só tu que era inteligente, né? Pois é, mano.."

Parou e olhou ao redor outra vez.

- "Eu vim falar pra tu que eu também sou inteligente. Deixa eu te contar uns bagulho que tu tem que saber, mano."

Outra pausa atenta.

- "Eu nunca fui inteligente que nem tu, não. Mas um bagulho que eu manjo é mexer em câmera, então enchi essa favela de visão pra tudo quanto é lado, só pra saber de qualquer caô a qualquer hora, tá ligado? Deixei tudo armado no wifi e monitorei de lá do campo, que é aberto e fica em cima. Por isso que tu me viu lá, lembra? Então!"

Parei o vídeo e precisei de água pra continuar assistindo. O peito pulando por um sopro de verdade percorrendo todo o corpo, como se o ar puro fosse espalhado pelo resto do físico, cansado de tanta coisa em pouco tempo.

- "Acabou que olha o que eu encontrei.."

A edição do vídeo mudou para a imagem gravada de uma das câmeras que o meu irmão instalou pela comunidade. Nela, um carro à paisana era totalmente descarregado por alguns marginais, sendo que um homem vestido de roupas comuns esperava paciente do lado de fora, segurando uma maleta preta. Meu irmão seguiu explicando no fundo.

- "Isso aqui é um cabo da PM vendendo arma e munição pros vagabundos, ó! Tá vendo bem? E não é só isso não, mano.."

O vídeo mudou diversas vezes e mostrou o mesmo cara entregando a carga pros traficantes, que descarregavam o carro por dentro e por fora, fosse em outros becos, vielas e até na ponte de uma avenida no pé da favela, em vários dias diferentes.

- "Eles fazem isso tem quase um ano, se ligô? E eu tô te passando essa informação, porque.."

Aí veio a parte difícil.

- ".. eu fui escalado pra chefiar essa favela, mas ninguém nunca me falou desse acordo, morô? O chefão nunca deu esse papo de dentro da prisão, mano. Eu fiquei muito escaldado com isso, me senti traído! No dia que teve o tiroteio, eu não planejei nada daquilo, foi coisa dos cara da facção, tá ligado?"

Não acreditei.

- "Tu foi no campo me ver, mas eles já sabiam que eu tava descontente e eu também tava ligado que tava sendo vigiado, então não te contei nada, moleque."

Toda a realidade foi tendo suas fraturas recosturadas com uma agulha feita de verdades pelo meu irmão, mesmo depois de morto e enterrado.

- "Foi por isso que fiquei mais escaldado ainda, porque eles fizeram parecer que foi geral roubado, mas não. Os canas não foram malocados, Edu! Eles já tinham vendido as armas pros vagabundos quando aquilo aconteceu, por isso os cana ficaram na desvantagem na hora dos tiro!"

- Então por que entraram em confronto, se sabiam que perderiam? Que babacas! - perguntei como se ele pudesse me responder pela tela do notebook.

- "Eles tretaram só pra chamar atenção da mídia e.."

- .. mostrar que os canas tavam saindo na pior, como se estivessem sem armamento e munição. - concluí junto com meu irmão. - Deixa eu adivinhar! Fez parecer que a falta de infra-estrutura era culpa do governo?

- "Os cana enchem os bolso de grana vendendo as armas, depois choram pra conseguir mais e continuam vendendo. Enquanto isso, vagabundo se arma até o dente e ninguém investiga, mano! Ninguém faz nada, tá se ligando nesse papo? É bagulho sério, dessas coisas que tu trabalha aí em baixo!"

Ele parou outra vez, mexeu na atadura e voltou a falar.

- "Eu fui numa missão e me balearam, mano! Ó o braço como que tá?"

Levantou a tipóia e mostrou pra câmera.

- "Mas pode ficar tranquilo que já tô ligado nos curativo!" - tentou sorrir outra vez. - "Os trafica da facção me deram essa casa aqui até eu me recuperar, se ligô? O filho do chefão tá comandando no meu lugar, então tô praticamente aposenta-"

Nesse momento, um barulho do lado de fora interrompeu e ele levantou assustado. Colocou a câmera escondida no meio de um monte de coisas e a imagem sumiu. Escutei uma porta abrindo em seguida.

- "NO CHÃO, FILHO DA PUTA! PERDEU!" - o grito de alguém.

- "Perdi, chefe! Tô sem nada, ó!"

Sua voz ficou abafada como se realmente tivesse deitado de cara pro chão. A próxima frase saiu abafada.

- "Que isso, meu chef"

O som de vários tiros dominou o áudio da gravação ininterruptamente. Fechei os olhos de nervoso, ciente de que foi naquele instante que meu irmão teve sua vida arrancada, dezesseis anos após contribuir para o plano que contribuiu para que arrancassem a vida da mãe do Téo, meu amor e melhor amigo. Foi ali, naquela mesma laje, que ele morreu e, horas depois, eu observei seu corpo todo aberto e exposto no chão, o sangue sendo levado pela água da chuva corrente no chão. Não reparei na câmera naquele dia e provavelmente nem os policiais. Alguém muito mais sagaz do que todos nós, capaz de prever movimentos e jogar de uma posição acima do tabuleiro, foi quem guardou o objeto e provavelmente transferiu tudo aquilo pra um pen drive, antes de colocar na minha porta. Por que logo lá? Alguém que precisaria me conhecer, conhecer meu irmão e nossa história. Mas quem? Não me prendi a isso, só me pus a pensar e repensar tudo que assisti. Repeti as últimas falas da gravação diversas vezes.

- "Os trafica da facção me deram essa casa aqui até me recuperar, se ligô? O filho do chefão tá comandando no meu lugar.."

Tinha que haver alguma dica ali.

- "O chefão nunca deu esse papo de dentro da prisão, mano."

- O chefão da prisão.. - falei comigo mesmo. - E o filho do chefão.. Tu ia se aposentar e tava desconfiado..

As sentenças foram se desfazendo e refazendo na minha mente. O coração começou a palpitar e senti que estava no caminho certo. Meu irmão entrou pro crime ao se envolver naquele plano idiota, aí foi preso e quem o libertou foram seus amigos de infância, pessoas envolvidas com traficantes da favela onde morávamos e que o conheciam desde pequeno, sabiam onde iria e ficaram em sua cola. Dezesseis anos sem ser pego pela polícia, ele cresceu dentro da hierarquia e sua cabeça tinha um prêmio, mas também envelheceu com a passagem do tempo.

- Mas tá faltando alguma coisa..

No vídeo, chegou o momento exato no qual ele levantou a tipóia pra mostrar o ferimento no braço. Foi quando matei a charada.

- É ISSO! Um bandido com dívida, uma cabeça a prêmio e velho demais pra agir. Ainda por cima incapacitado, porque levou tiro no braço. Eles não precisavam mais dele, por isso o filho do chefão assumiu o morro e mandou ele praquela casa. A mesma casa que os policiais invadiram, porque já tinham a localização e o horário corretos!

Mesmo pesado, o peito se abriu num choro leve e carregado de entendimento. Eu até poderia estar viajando na minha imaginação, mas, sendo um cara preso à educação e ao entendimento lógico das coisas, foi o mais perto que consegui chegar de entender toda a trama por trás da morte do meu irmão. Eu peguei aquele pen drive e fui direto ao gabinete do Prefeito, bem naquela tarde mesmo. Mostrei somente a ele o conteúdo e o mesmo não ficou nem um pouco chocado com tudo que viu, como se já fosse acostumado à todas aquelas sujeiras da violência urbana da cidade. Comparamos dados de roubos dos últimos anos e constatei que a polícia fora alvo principal dos bandidos diversas vezes, de acordo com os boletins, sempre como a vítima da situação, sendo que provavelmente foi aquele mesmo cabo corrupto que apareceu nas gravações do meu irmão.

- Sabe o significado disso, professor Eduardo?

O político sorriu pra mim e eu soube que a vida estava pra mudar de cabeça pra baixo a partir daquele momento. Mas isso foi totalmente aceitável, afinal de contas, quantas vezes ela não mudou de direção nos últimos dezesseis anos? E, no fim das contas, essas coisas de sentidos não mais me serviam. Eu agora era uma consequência do todo, o resultado atual de todas as experiências vividas até então. Eu era o Centro que poderia conectar o resto, e foi o que decidi fazer. Deixei a cidade saber como funcionavam algumas das engrenagens principais que regiam a nossa vida. E isso trouxe alterações significativa à vida de muita gente.

Em menos de um mês, por caráter de emergência e mediante todas as provas que juntamos dentro de um curto tempo de investigação, estava implantada a comissão parlamentar de inquérito dos desvios da polícia na assembléia legislativa, mais conhecida como CPI das armas. Depois de muitas horas de debate e argumentação lógica, o Prefeito expôs um grande esquema de corrupção dentro da polícia, evidenciando que muitos deputados e figuras políticas estavam envolvidas. Tudo isso resultou numa das maiores investigações da cidade, no sentido de prisões e apreensões de dinheiro, armamento e munição traficada. Inúmeros secretariados e policiais corruptos da corporação foram presos, isso ainda acabou por desarticular o poder da milícia, já que parte do dinheiro da venda de armamento parou de ser arrecadada. Por conta do meu envolvimento e de todos as mudanças que minha denúncia causou na cidade, minha cabeça começou a valer alguma coisa no meio público e também na boca dos traficantes, o Prefeito inclusive me aconselhou a contratar uma escolta armada, mas achei desnecessário.

- Eu sou só um professor. Se quiserem me matar, que matem. Entrem lá no colégio onde dou aula, esperem eu terminar de falar e podem matar. Até isso acontecer, vou continuar defendendo que só educação salva e liberta!

O comandante Arthur, como qualquer superior da polícia, fez questão de me mostrar num evento público e me condecorar com uma medalha em formato de coroa, mas, eu com o senso crítico afiado e já tomado pelo pensamento de que ele era mais um policial sem controle dos próprios homens, entendi que, no fundo, aquela foi só a oportunidade dele de afirmar seus péssimos esforços na limpeza da corporação que tanto defendia. Se fosse mesmo tão amante da polícia o quanto dizia ser, teria olhos mais abertos para toda aquela corrupção interna bem debaixo do próprio nariz, se é que ele mesmo não fazia parte dela. Ainda recusei um convite público de integrar a equipe de inteligência.

- "Que inteligência?" - quis perguntar no microfone, mas me mantive pacífico.

As mãos de cada uma daquelas pessoas estava suja de sangue, assim como a dele também estava. E nessa hemorragia inestancável, uma mão acaba lavando a outra, ou sujando mais ainda. O meu, pelo menos, eu sabia que era quente, talvez por isso as experiências me levaram para o lado maduro da vida, ainda que do meu jeito de sempre, batendo o pé e querendo fazer a diferença. Do fundão da sala, de volta às salas.

Por conta dos primeiros dias após todas essas reviravoltas, eu aceitei não dormir no meu apartamento logo de cara, ficando num hotel pago pelo governo. Ainda ganhei um número novo de celular, só por via das dúvidas, mas não consegui abandonar a rotina das salas de aula, então meti a cara no trabalho e fingi que nem era comigo. As coisas no colégio só melhoraram a partir daí. Por conta dos resultados dos alunos no ENEM, ganhamos maior atenção do governo e as bibliotecas foram expandidas, além da chegada dos laboratórios de informática. No começo, achei injusto para com as outras escolas da região, mas de repente aquele era só o início do meu projeto para a completa mudança necessária à educação. Foi nesses pouquinhos que acabei me tornando diretor do Sebastiana. E meus alunos não ficaram pra trás, desembolsaram mais incentivo pros seus bailes na prefeitura, mas com a promessa de retorno e investimento. Uma das alunas quase não se aguentou ao me dar a notícia.

- Quem liberou essa verba foi aquele secretário que é seu amigo, professor!

- Meu amigo?

- Sim, aquele barbudo que é todo sério, meio alto, forte..

Pensei nele e sorri. A mente ficou até morninha.

- Não lembro. - menti.

Naquela tarde de calor, o céu demorou a ficar escuro e a quentura me fez suar. No meio do caminho pro hotel, pensei que precisava de passar em casa pra pegar mais roupas e não achei que haveria mal nisso. Até que o encontrei. Antes mesmo de subir as escadas pro meu andar, senti o cheiro do perfume de cereja e a temperatura fria do corredor. Ele tava sentado na porta do meu apartamento, aparentemente cochilando, mas acordou quando dei o último pisão ao chegar no nível do chão, propositalmente alto. Aí me olhou e levantou rápido, zonzo.

- Edu, eu sei que você tá muito puto e tem toda razão. - começou. - Mas foi só uma questão de tempo e espaço, agora a gente pode conversar!

Eu nem parei, abri a porta e entrei, deixando o Téo do lado de fora. Só que não tive coragem de seguir adiante e deixá-lo sozinho, afinal de contas, dezesseis anos não seriam jogados fora assim, ainda mais depois de tudo. Eu só queria que ele falasse, eu precisava de ouvir dele. E foi o que o meu amigo fez.

- Ah, qual foi, Dudu? Você é o cara que mais fala sobre conversar e resolver tudo numa boa, dar atenção a todo mundo! Não é possível que não vai me ouvir!

Silêncio. Continuei de costas pra porta e ele foi esperto, provavelmente sentiu meu calor.

- Bom, eu sei que você ainda está aí! Então vou falar, não quero nem saber! Depois que você saiu, eu e meu pai brigamos. Ele não tá mais falando comigo, mas, sinceramente, eu nem ligo. Pensei bastante sobre as coisas que eu realmente quero fazer, então usei esse tempo e esse espaço pra recomeçar até onde deu. E agora estou aqui te pedindo pra conversar comigo, que nem fizemos sempre nos últimos meses!

Aquela era a comoção inicial que eu estava procurando. De trás da porta, respondi.

- Correção: eu fiz. No último encontro tu não foi, se lembra?

Ele pensou um pouco.

- Não, não lembro! Quando foi isso, Dudu?

- Claro que não lembra, tu não tava lá! Só eu. Boa noite, Téo!

Ameacei ir embora, mas ele insistiu.

- Não, espera! Diz que você escutou tudo que expliquei e que vai conversar, por favor!

- Melhor tu ir pra casa, a gente não tem nada pra falar. Boa noite outra vez!

Apaguei a luz do corredor por dentro e ele parou de falar. Mas não saiu dali, encostou-se na porta e foi descendo ao chão, parando sentado como se fosse ficar ali até ser ouvido.

- Eu só quero te falar das coisas que eu realmente quero fazer a partir de agora. Não tenho absolutamente ninguém pra contar se não for você, o cara que abriu minha mente. Sério que agora você corre? Isso tudo é medo ou hipocrisia?

Aquilo pareceu uma afronta pra mim. O sangue ferveu em poucos segundos e rebati.

- Se tem uma coisa que eu não sou, é hipócrita!

Só que ele foi rápido.

- Ah, não?

Comecei a ficar puto.

- Me dá só um exemplo de hipocrisia minha e eu juro que abro essa porta e deixo até tu entrar!

Esperou.

- É só um exemplo? Sério?

- Te dou minha palavra! Quero ver!

Todo destemido, ele deu um passo gigantesco na moral da conversa.

- Então eu já tenho uma garantia, porque se eu der um exemplo certo e você não abrir, vai estar sendo outra vez hipócrita e mentiroso. Justo?

Eu tava meio revoltado por ele não ter respondido o próprio pai e me colocado pra fora, mas o puto tinha razão. Maldita lógica.

- Óbvio, Téo! Dá logo esse exemplo!

- Tá nervoso, é?

E aí não respondeu mais. Esperei um minuto, dois, mas nada saiu daquela boca que tanto cansei de beijar no nosso último encontro.

- Boa noite, Téo! - decidi terminar a brincadeira.

- Você foi o primeiro.. - ele começou. - A me dizer que violência não resolve nada. E o que você fez quando fui tentar te convencer a não ir na marcha?

Escutei o barulho do pulo que ele deu de tão certo que estava sobre si.

- Você me deu um soco! Você quem começou aquela briga física!

- Ah, qual é!? Tu me desmaiou e sequestrou! Depois me embebedou e comeu, quer falar de moral?

Falei num volume que até os vizinhos escutaram e isso me lembrou que ele devia estar morrendo de vergonha. Outra vez levei um choque.

- Comi mesmo! E agora vou entrar pra comer de novo! - riu alto.

Aquela atitude foi nova, nunca vi meu amigo tão feliz e animado quanto naquela noite. Eu perdi e era um homem honesto, então destranquei a porta, mas fiz força para que ele não conseguisse entrar. Bobagem, Téo abriu e passou fácil pro lado de dentro. Me olhou fixo nos olhos e veio andando em minha direção. Cruzei os braços, amarrei a cara e me fiz de difícil.

- Olha, se tu tá aqui porque quer um obrigado por ter liberado o baile, era mais do que sua obrigação! Escutou?

Porém fui ignorado, a mão veio no meu rosto e me suspendeu. Olhos nos olhos, corpo no corpo, tomei um beijo violento de saudades e ainda fui mordido no lábio inferior. Resisti no começo, mas cedi e logo estávamos nos agarrando. Ele parou e tornou a me olhar.

- Eu já te falei que vim conversar sobre o que quero fazer a partir de agora. Com você, só eu e você.

Sério e baixinho pra mim. O universo pareceu um objeto nosso, com o qual brincaríamos de jogar de um lado a outro, da esquerda à direita, de cima a baixo.

- E o que tu quer fazer a partir de agora? - perguntei.

Téo sorriu abertamente e se afastou de mim, mas ainda virado de frente. Parou próximo à janela da sala e, iluminado pelo céu da noite, removeu a blusa social sem parar de me olhar. Em seguida tirou a calça, a cueca e ficou completamente nu, com os ombros divididos e o peitoral protuberante e levemente definido. O cacete meia bomba pela tensão entre nós, duas pernas coxudas e peludas convidando. Ele pensou além da conta naquele momento, meu calor cresceu e o puto não hesitou. Virou de costas pra mim, com a bunda toda no meu campo de visão, e falou.

- Amanhã a gente vai foder, Dudu.

- Amanhã? - perguntei.

- Amanhã. Porque hoje vai ser só no amor gostoso!

Aí empinou a raba e, bem tranquilo, foi se posicionando de quatro no sofá. Só então entendi o sentido de tudo aquilo.

- Que isso, Téo? Não me provoca com essas brincadeiras!

- Brincadeiras? Quem aqui tá brincando, Eduardo?

Aí abriu as nádegas com as mãos e piscou, totalmente exposto e preparado pra me sentir. Não tive como me segurar, nem fiz questão de tirar a roupa, só me joguei no sofá e começamos a nos agarrar. Ele ficou muito excitado, então aproveitei pra sentir seu gosto pela primeira vez antes de qualquer coisa. Agarrei a vara grossa e caí de boca, esfregando a cabeça na língua insistentemente, ao mesmo tempo em que chupei, masturbei e lambi os ovos enormes de macho frio. De baixo, eu o vi levar as mãos à cabeça e exibir as axilas pra mim, de tão nervoso com a mamada. Foi nesse ritmo que aproveitei pra descer pelo períneo, indo além do saco e chegando devagar no outro lado da moeda que éramos eu e Téo. Naquele momento, até o ativo ou passivo deixou de existir para nós. A língua entrou pelo rego dele e o gosto doce me dominou, o safado ainda brincou de piscar conforme fui cutucando e abrindo ainda mais espaço para o preenchimento que se daria muito em breve. Ele apoiou as pernas peludas nos meus ombros e cedeu ainda mais abertura pra mim, gemendo e puxando meu cabelo de tão aflito pelo tesão íntimo.

- SSSS! Isso!

Eu nem respondi, não quis desperdiçar tempo, mesmo muito seguro do nosso envolvimento àquela altura. Usei os dedos no processo de alargamento e brinquei com a elasticidade do meu gostoso, que provavelmente teria sua virgindade consumida da melhor maneira possível. Virei seu corpo devagar, ainda naquele quase franguinho assado improvisado, e, com muito cuidado, pincelei a glande pela entrada. Ele relaxou e me deu condição, mas permaneceu com aquela cara de aflito, que me fez abaixar e dar-lhe um beijo forte na boca. Deixei que sentisse o sabor de sua própria intimidade e aí a coisa foi ficando gelada, por mais quente que eu estivesse. Fui empurrando o quadril e mordendo o pescoço dele, sugando sua pele e sentindo seu gosto entranhado por entre o físico naturalmente mais frio que o normal, além de rígido, em dia, com pelos na medida. Internamente, Téo era quente como qualquer outro, mas justamente por ser ele que a coisa era ainda melhor.

- Hm! Que delícia! Ssss

O anel alargou pra me permitir passagem e eu não me segurei, o sangue quente queria ser alimentado pela energia amena de dentro do meu amado. Isso era uma necessidade básica, expressada pelos beijos e tentativas insistentes de ir entrando. À cada segurada, o relaxamento e mais entrada, até chegar no talo. Foi quando senti a cabeça batendo lá no fundo e o Téo se arrepiou, apoiando os pés em meus ombros, todo exposto pra mim. Abaixei e voltei a beijá-lo, perdido entre mordidas e chupadas pelo rosto, tórax e mamilo. Até as axilas dele eu cheirei e lambi, ele ainda fechou o braço e me apertou em seu tórax, só pelo tesão preso à nossa necessidade física. E química. Biológica. Pra não falar de histórica. O cacete engrossou, então parei um pouco e ficamos só nos curtindo, com as mãos e as bocas. De ladinho, deitei por trás dele, suspendi uma perna e me fiz por entre as nádegas carnudas, às vezes com a vara escapando, mas, tão tomado de tesão, que nem me liguei e segui estocando com o quadril, ele mesmo usando a mão pra tornar a me guiá-lo na direção certa.

- Hmmm!

Agarrou-me pela frente e aproveitei pra morder suas orelhas. Téo começou a gemer e aumentei as investidas, grunhindo no ouvido dele todas as safadezas que se diz numa foda de reconciliação.

- É assim que tu pede desculpa, é?

- SSS! Me desculpar nunca foi tão bom!

- Assim que vou querer brigar todo dia, Téo!

Chupei peito, mordi boca, entrelacei dedos, fiz tudo que imaginei que ele curtiria, porque comigo eu adoraria. Perto de gozar, comecei a sentir a ponta do cacete formigando de uma maneira deliciosamente fria, como se o interior, a essência do Téo, se comunicasse intimamente comigo. Isso me induziu a aumentar os movimentos e cair ainda mais de mordidas em seu pescoço. Engrossei lá dentro e ele piscou diversas vezes, me causando ainda mais aperto e tesão à flor da pele. Torci os dedos e o gozo veio onde estava mesmo, só que não parei.

- Arhh! SSSS!

- Isso! MMMm

Perdi a conta de quantos jatos foram, mas o suficiente pra empapar o rabo dele e a rola escorregar um pouco depois. Demos uns amassos pelo sofá, continuamos a brincadeira durante o banho e, na hora de deitar, o Téo não se aguentou e veio todo carente dormir de conchinha comigo. Essa foi a segunda vez que dormimos juntos, mas a primeira naquela posição e na minha cama. Antes disso, porém, fizemos mais amor puro e gostoso, dessa vez ele me penetrando e nos saciando de saudade líquida, calor e frio mesclados e unificados num só ponto, num só momento de total união. O ápice do equilíbrio de tudo que simbolizávamos um ao outro, além do próprio peso de nossas vidas, agora unidas e sem mais espaços vazios nas entrelinhas.

Nosso relacionamento evoluiu devagar. Mesmo muito envolvidos e bem íntimos, tanto como amigos quanto namorados, eu e Téo tivemos que rever nossa lista de amigos, justamente por conta do quão conservadores eles poderiam ser, no sentido de se incomodarem com seu novo estilo de vida. Esses, por mais que no começo eu tivesse preferido nunca conhecer, foram os que jamais convidamos pra qualquer evento que organizávamos no meu apê ou no dele. Paralelamente, o Prefeito também trouxe mudanças significativas à nossa realidade. Depois de dois mandatos, lançou-se como candidato ao governo e venceu, tornando-se agora nosso exímio Governador. A cidade continuou a mesma, mas foi por causa do trabalho no gabinete que consegui dinheiro pra investir no que considerei mais importante. Em menos de um ano, abri um curso técnico voltado para jovens moradores de favela, dando ênfase nas áreas tecnológicas do conhecimento, como desenvolvimento de redes, monitoramento por câmeras e a informática em si. Dei a ele o mesmo nome do meu irmão, até porque, se não fosse por ele, a ideia sequer existiria. De repente, em algum momento, algum jovem sem oportunidades poderia crescer por causa do curso e dizer que se inspirou num cara que não teve as mesmas oportunidades que ele, mas nem por isso deixou de ser inteligente. Fez escolhas erradas, sim. O Téo se formou em engenharia civil no mesmo ano em que também foi aprovado no vestibular de LETRAS, que foi uma das paixões abandonadas por ele ao longo dos anos. Passei muitas noites estudando com ele, dividindo atenção entre o sexo, o amor e os estudos. Sim, sexo e amor a gente fazia diferente. Tudo bem que existiu muito de um no outro, mas em determinados momentos, após um longo dia cansativo, a gente simplesmente não conseguia se ver e não recorrer ao único lugar onde chegaríamos juntos na cama: o êxtase. Encontramos o eixo principal entre nossas energias, unificamos isso e trouxemos a convivência em dupla a novos sentidos. Ele ainda era da direita, mas uma direita meio esquerda, eu também meio esquerda direita. Até o momento em que, cientes de todas as direções que já havíamos tomado, convergimos nossas essências e ideias em prol do mesmo desejo: o de noivar e morar juntos. Em três anos, nossas vidas mudaram mais uma vez e completamente. Eu lembro como se fosse ontem do dia da mudança pro nosso apartamento, a partir do qual viveríamos a vida de casal que havíamos idealizado dentro de nós mesmos. Ele estava levando uma gaveta pelo hall da entrada e, no momento em que passei e dei-lhe um beijo, um papel amassado deslizou e caiu pelo vão de baixo da madeira, direto no chão. Téo abaixou um pouco desatento, abriu aquele papel e os olhos encheram d'água quase que instantaneamente.

- O que foi, amor?

Demorou a responder e fiquei preocupado.

- O que aconteceu?

- Relaxa, meu bem. - começou.

Aí sorriu, mesmo chorando.

- Nem toda lágrima é de tristeza!

Virou e mostrou o que deixou cair. Ali, diante dos nossos olhos, estava um objeto muito simbólico do começo do nosso relacionamento, eu soube assim que vi a folha amassada e com letras escritas meio tortas, como se alguém tivesse escrito com uma mão inexperiente.

- Essa.. foi a carta que eu queria ter te dado, sei lá, dezenove anos atrás. No dia que a minha mãe morreu.

Pensei um pouco e lembrei.

- A carta tu tava segurando na última vez que nos vimos em frente ao colégio.

Ele assentiu com a cabeça. Entre marcas do tempo, pingos d'água, amassos e rasgos, no papel e na carne, toquei a caligrafia atemporal do Téo e, inevitavelmente me pus a ler.

- Essa foi a minha melhor tentativa de escrever com a Direita! - completou ele.

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PARTE 3!

A parte 4 está disponível somente no wattpad: http://goo.gl/dk1mxR

Em breve, lá também terá a sessão de comentários e curiosidades sobre CEREJA!

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Comentários

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  • Desejo receber um e-mail quando um novo comentario for feito neste conto.
14/02/2018 16:59:03
PERFEITO, emocionante, intenso. Apaixonante
14/02/2018 15:43:44
Perfeito como sempre
06/02/2018 14:49:59
Seus contos me lembram os contos de um Tiago que tinha aqui na CDC que era um dos meus autores favoritos, inclusive nem sei se ele posta aqui ainda. Parabéns André, se pudesse dar uma nota maior que 10 eu dava sem duvidas hehe
06/02/2018 13:35:21
Fantástico. Adorei a história, o enredo, o desfecho. Li a carta tbm. Só senti falta de saber um pouco mais do moreno é do desfecho dele tbm...
06/02/2018 02:14:20
Acho q esse foi o conto mais maravilhoso em anos que li aqui. No nível do Escritor_Constista. Foi muito bom. Parabéns espero que não pare de postar ♡

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